Redes Sociais na Internet como Novas Possibilidades para Uma Comunicação Democrática

>Andréia Lúcia V. Nobre *
Antônio S. Silva **

*Acadêmica do 8º período de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
**Professor de Políticas de Comunicação do curso de Jornalismo da Pontifícia

Resumo

Este artigo tem por finalidade analisar como as inovações tecnológicas advinda principalmente com a Internet podem conduzir às políticas de comunicação no sentido de contribuir para uma informação mais democrática. Democracia que se faz presente no uso das ferramentas de redes sociais a partir de recursos que permitem a participação e a interatividade com os veículos de comunicação na rede. Este estudo tem como base a pesquisa de campo realizada com o editor-chefe do Jornal O Popular e os pressupostos teóricos dos autores estudados em sala.

Palavras-chaves: Internet. democracia. comunicação. Jornal O Popular.

Introdução

A era tecnológica do fim do século XX, considerada por Ciro Marcondes Filho como a fase do Quarto Jornalismo, ampliou a comunicação de forma a utilizar diferentes tecnologias para informar o público. Tecnologias como a televisão, o rádio e a modernização das redações influenciaram na produção e construção da notícia, porém, a mudança ainda maior aconteceu a partir da comunicação sem fio, como o celular e a Internet, que desafiam o poder hegemônico dos meios tradicionais.

Com o advento da Web 2.0, em 1991, a Internet se tornou ainda mais significativa para a comunicação, pois o conteúdo da rede torna-se mais atraente ao leitor por possibilitar a convergência de som, imagem, texto e vídeo. Para Castells (2002, p. 414), a integração potencial de texto, imagens e som no mesmo sistema – interagindo a partir de pontos múltiplos, no tempo escolhido em uma rede global, em condições de acesso aberto e de preço acessível – muda de forma fundamental o caráter de comunicação.

No Brasil, as primeiras iniciativas para disponibilizar a Internet ao público em geral começaram em 1995, com a atuação do governo federal (através do Ministério da Comunicação e do Ministério de Ciência e Tecnologia) no sentido de implantar a infraestrutura necessária e definir parâmetros para a posterior operação de empresas privadas provedoras de acesso aos usuários. Desde então, o Brasil acompanha o crescimento constante do número de pessoas com acesso à Internet, principalmente após a disseminação das redes sociais como facebook, Orkut, myspace, twitter entre outros.
Considerado o quinto país com maior número de conexões, segundo levantamento feito pelo Ibope/Nielsen, o Brasil ao longo de 2009 teve um crescimento de 8,2% de acessos à Internet, ou seja, até dezembro de 2009 eram 67,5 milhões de brasileiros acima de 16 anos incluídos no mundo digital. Se comparado à Europa, que detêm 420 milhões de usuários percebe-se que ainda é um número pequeno de acesso pelos brasileiros. Em busca de soluções, o governo federal lançou no mês de abril de 2010, o Plano Nacional de Banda Larga que visa universalizar a Internet rápida no país, contribuindo assim para diminuir a exclusão digital que permeia 104,7 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. Com o projeto PNBL, o governo pretende oferecer até 2014 cerca de 20 milhões de novas conexões, superando os atuais 11,03 milhões.

Com isso, além de atender a um direito essencial da população, que é o direito à comunicação, a banda larga é uma iniciativa que permitirá a democracia da informação na rede, representando o reflexo dos avanços tecnológicos, onde a comunicação passa a fazer parte da vida das pessoas de alguma forma, levantando discussões sobre sua função diante de uma sociedade da informação na era da Internet.

A influência da internet no processo democrático da comunicação
A partir da década de 60, período em que se acentuou a questão do monopólio das empresas de comunicação, o domínio por elas estabelecido vai ameaçar o elemento fundamental da democracia: a liberdade de expressão. Assim, o modelo de esfera pública defendido por Habermas (1984) valoriza a importância da comunicação no mundo contemporâneo, em que implica um conceito de democracia centrado no discurso e baseado na mobilização social e na força comunicativa de seus participantes. Ou seja, a esfera pública denota as condições de comunicação nas quais é possível a formação, por meio do discurso racional, de opinião pública sobre questões relevantes para a sociedade.

Diante disso, a Internet representa a inovação da tecnologia capaz de “romper” com a monopolização das empresas de comunicação, pois o meio permite diversidades de informação sem que haja um domínio hierárquico dos meios de comunicação. Assim, a Internet e toda sua diversidade de ferramentas disponíveis aos usuários, de forma livre e gratuita – em que pode escolher onde navegar -, é uma forma de propiciar o consumo de informação atendendo a pluralidade do público, sem que haja uma imposição do produto, sem que as empresas de comunicação capitalistas exerçam seu domínio no sentido vertical (de cima pra baixo) como é perceptível nos meios tradicionais.

Por isso, é possível perceber que a democracia, no âmbito do conhecimento das pessoas sobre os meios de comunicação disponíveis hoje, obteve um grande avanço desde o advento das novas tecnologias. Mas se analisarmos a democracia sob as perspectivas do sistema político e econômico que permeia as empresas de comunicação, notaremos a falta e o longo caminho que é preciso percorrer para oferecer à sociedade possibilidades de terem sua voz ouvida, sua pluralidade reconhecida nos diferentes meios. Sob esta óptica, a Internet como mídia permite acesso e trocas de informações entre canais e pessoas distantes no tempo e espaço, o que possibilita “construir” uma comunicação democrática. Porém, ainda há limitações devido aos interesses econômicos das mídias tradicionais que resistem em percebê-la como uma porta a mais para atuar e atender aos anseios do novo público que surge, e cresce na rede.

A apropriação da rede na Organização Jaime Câmara

Em Goiás, a Organização Jaime Câmara, grupo que detêm a maior concentração da mídia goiana, traz reflexo da resistência ao uso das possibilidades da Internet como meio de comunicação. Desde que o primeiro site da Organização foi lançado, em 1996, somente este ano a empresa investiu na necessidade de ampliar as funcionalidades da rede. A empresa sentiu-se obrigada a também fazer parte deste “novo” ambiente tecnológico, repensando formas de investir em estrutura digital que propicie à produção de conteúdos para o ciberespaço. Segundo o editor-chefe do Jornal O Popular, João Unes, a busca por um jornalismo mais interativo, com conteúdos que reflitam a participação do público também da rede é hoje uma realidade que não pode ser desprezada.

Visando esta participação e percebendo a deficiência do site do Jornal O Popular, os próprios jornalistas da empresa sentiram necessidade de acompanhar a tendência (nada passageira) de tornar-se parte da rede, utilizando as ferramentas de redes sociais, por exemplo os blogs e microblogs, como espaços que propiciam ampliar fontes de informação e contribui para o fazer jornalístico.

Com isso, foram criadas versões na Internet dos meios tradicionais, utilizando sites comerciais, portais e mesmo perfis em redes sociais para acompanhar as demandas do mercado digital. Com a criação do Facebook do Jornal O Popular, em abril de 2010, houve a necessidade de abrir espaço para ouvir e reproduzir as sugestões, comentários e discussões dos usuários, como reflexo de que essa apropriação mais participativa de fato promova uma comunicação democrática.

Segundo o editor, a ferramenta de rede social Facebook possibilitou que um novo público pudesse participar de discussões sobre questões como trânsito, política, saneamento básico, segurança e outras necessidades estruturais da cidade. A partir desta iniciativa criou-se um espaço no jornal O Popular que expressasse as perguntas mais significativas feita pelos usuários cadastrados no site com as respectivas respostas dos responsáveis. O conteúdo é publicado todos os sábados com temas diferentes, em que o assunto a ser abordado na próxima edição é divulgado nas mídias tradicionais da empresa durante a semana. Para João Unes, a ferramenta hoje proporciona um ambiente favorável ao jornal, pois além das informações, permite o intercâmbio de fotos e uma interatividade mais instantânea entre jornalistas e o público.

Diante disso, é possível perceber como a maior empresa de comunicação do Estado de Goiás está lidando com as novas inovações da tecnologia. Mesmo diante de um retorno financeiro a longo prazo, a OJC implantou uma editoria de online e investiu em instrumentos digitais modernos visando atender melhor o público do jornal presente na rede. O novo site do jornal O Popular é reflexo disso. Lançado no mês de junho de 2010, o site foi todo reformulado, com novo layout e novas ferramentas de interação, que permitem não só a visualização de algumas matérias ainda permitidas para os não assinantes como também abre possibilidades dos participantes da rede se tornarem produtores-colaboradores da produção da notícia, a partir de comentários e envio de fotos e vídeos para o jornal.

Isso mostra que a necessidade de aproximar o público dos jornalistas é uma tendência nada passageira, e sim muito significativa para o processo de elaboração de pautas e desenvolvimento de conteúdos, contribuindo para um jornalismo mais participativo, e consequentemente, para uma comunicação mais democrática, em que além de receptor é possível ser um produtor de conteúdos e poder escolher o que ler e a quem ler, por meio de uma interação dinâmica, horizontal e que promova conhecimento.

Considerações Finais

As tecnologias da comunicação e da informação atingem cada vez mais públicos advindos dos meios tradicionais, que buscam acompanhar as novas tendências digitais. Os celulares e os computadores são exemplos dessa tendência, sendo cada vez mais acessíveis à sociedade, devido ao barateamento do custo destes instrumentos de comunicação como também o valor da conexão, com diferentes planos de velocidade que atendam a classes mais baixas da população.

Nesse sentido, é preciso repensar as políticas de comunicação necessárias para a construção de uma mídia democrática, em que a informação seja um direito humano reconhecido e valorizado. Trata-se de compreender tais políticas a partir da concepção de que a mídia deve contemplar os pontos de vista das diversidades sociais, abordando interesses também distintos presente em uma sociedade plural, a fim de alcançar uma cultura participativa nos meios de comunicação.

Sob as perspectivas das inovações tecnológicas como a Internet, o desafio está em perceber a participação do público no processo informacional como mecanismo capaz de romper os níveis hierárquicos, de concentração de poder dos donos da mídia. Assim, como produtores e não meros receptores passivos, o espaço da rede torna-se o meio mais democrático de promover conhecimento por meio das trocas de informação disponível a todos que têm acesso e que percebam os benefícios do uso adequado da interatividade.

Referencial Bibliográfico

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 6ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
CIRO, Marcondes Filho. Comunicação e Jornalismo. A saga dos cães perdidos. 2ª Ed. São Paulo: Hacker Editores, 2002.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
NOBRE, Andréia. A apropriação do Twitter no trabalho jornalístico. Trabalho de conclusão de curso, 2010.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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