Pesquisadora analisa como os folhetins da tevê refletem e moldam o país

Correio Braziliense

Em 1950, estreou no Brasil Sua vida me pertence, a primeira telenovela a ser exibida em terras tupiniquins. De lá pra cá, centenas de folhetins televisivos já foram transmitidos — e muitos, reprisados —, emocionando e divertindo milhões de brasileiros que acompanham as tramas diárias em seus televisores. As telenovelas ganharam tanta importância que extrapolaram o limite do entretenimento e viraram objeto de estudo da ciência. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), divulgada no mês passado, mostrou que, apesar de muitas vezes serem encaradas como fúteis e frívolas, as novelas desempenharam um papel importante na história recente do Brasil. Nos últimos 40 anos — quando o gênero se popularizou enormemente —, alguns dos acontecimentos mais importantes do país foram retratados nas narrativas folhetinescas da tevê.

Em seu artigo Telenovelas e interpretações do Brasil, a pesquisadora Esther Hamburger, da Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), explica que a temática das novelas nacionais, independentemente do canal em que foram exibidas, passou por pelo menos três fases. A primeira, a partir de 1969, foi focada nos grandes desafios da urbanização vivida pelo país no período. O chamado “milagre econômico” teve na televisão um de seus maiores divulgadores. “Ao difundir narrativas que vinculam moda, decoração, aparelhos eletrônicos, carros e o hábito de viajar, a novela, além de turbinar vendas, possibilita que, via consumo, o espectador se sinta parte do universo narrativo”, escreve a especialista.

Nesse período, as novelas retratavam um Brasil “do futuro”, que crescia e se desenvolvia economicamente, mas que também avançava culturalmente. “As novelas da Rede Globo, a partir de 1969, registraram os dramas da urbanização, das diferenças sociais, da fragmentação da família, da liberalização das relações conjugais e dos padrões de consumo”, analisa Esther. Sobretudo na segunda metade dos anos 1980, a “novela lança moda e ensina o uso de novos produtos”, especialmente meios de comunicação de transporte. “Nessa vitrine eletrônica, temas polêmicos — como o orgasmo feminino ou, anos depois, a discriminação de cor e o beijo gay — ganham visibilidade, por meio da ação de personagens associados a certos objetos e estilos de vestir que sugerem uma certa ‘modernidade’”, explica.

Discurso político
Com a redemocratização, a preocupação dos brasileiros com um velho problema nacional, a corrupção, ganhou espaço nas telas de tevê. Novelas como Roque Santeiro (1986), Que rei sou eu? (1987) e Anos Rebeldes (1992) usaram cidades fictícias e histórias fantásticas para falar de política. Em outras situações, o discurso político contra a corrupção foi mais direto, como em Vale Tudo (1988). “Até que ponto vale ser honesto no Brasil” foi, segundo o autor, Gilberto Braga, a grande reflexão trazida pela narrativa.

Nesse período, a extinta Rede Manchete, para fazer um contraponto ao pessimismo generalizado dos folhetins, lança mão de um outro movimento que ocorria no Brasil: a interiorização. Nesse contexto, tramas como Pantanal (1990) apostavam no descobrimento de um Brasil diferente. Longe das grandes cidades do sudeste, um país do Pantanal, da Amazônia, do cerrado e de outras regiões do país ganhava importância. “A fauna, a flora e a família no lugar do consumismo moderno e liberado”, conta Esther Hamburger.

Em 2006, as mudanças sociais e a concorrência entre as diversas emissoras levam a uma nova mudança a que o brasileiro assiste no horário nobre. A trama Vidas Opostas leva a favela para a telinha, e os dramas da segurança pública e poder paralelo das quadrilhas nos morros cariocas. A questão da violência, posta em segundo plano na dramaturgia da tevê, mas amplamente difundida nos filmes, como o premiado Cidade de Deus (2002), é a nova tendência televisiva. “Isso se repete em outras novelas e séries, por exemplo, Cidade dos Homens (2005) e Duas Caras (2008), mostrando um Brasil bem próximo, mas que permanecia não representado na tevê.” A partir de conflitos de gênero, geração, classe e região, a novela fez crônicas do cotidiano, que a levaram a se transformar em palco privilegiado para a problematização de interpretações do Brasil”, completa a pesquisadora paulista.

A doutoranda em sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Daniela Stocco conta que as primeiras novelas de grande sucesso no país surgiram na virada dos anos 1960 para os anos 1970. “As primeiras a ter índices de audiência mais destacados e a gerar mais lucro foram Beto Rockfeller (1968), exibida na extinta Rede Tupi, e Irmãos Coragem (1970), na Rede Globo”, explica a especialista. “Mas é entre as décadas de 1970 e 1980 que se dá o ápice da audiência das novelas, quando se pode dizer que elas se firmam como gênero popular no Brasil”, completa.

Se, em seu auge, a audiência chegou próxima dos 100% dos televisores ligados, na década seguinte as telenovelas começaram a apresentar sua primeira crise. “A partir da década de 1990, esses índices (de audiência) vão caindo, o que se acentua na década de 2000. Mesmo assim, a novela Paraíso tropical, que não apresentou os mesmos índices de novelas anteriores, tinha ao menos 40 milhões de telespectadores por dia”, conta a pesquisadora, que, em seu mestrado, analisou a novela, exibida no horário nobre em 2007.

Índices em queda
Apesar de a audiência não ser a mesma de anos atrás, a ciência decidiu ocupar-se das telenovelas exatamente por seu importante papel na formação da sociedade atual. “Elas, muitas vezes, são vistas apenas como uma produção cultural menor, por fazer parte da cultura de massa e da indústria cultural”, conta Daniela. “No entanto, elas são um espaço importante de representação e discussão da sociedade brasileira, e ajudam a compreender questões sociológicas, como consumo, relações de classe e de gênero . No meu caso, ajudou a compreender o papel do Rio de Janeiro na construção de uma identidade nacional”, afirma Daniela Stocco.

A pesquisadora conta que novelas como Paraíso tropical têm um papel importante na construção da identidade nacional do brasileiro. “O Rio de Janeiro construído pela novela contribui para que os telespectadores do Brasil identifiquem com a cidade, por meio, por exemplo, da conciliação entre moderno e tradicional e entre urbanização e belezas naturais”, conta. A pesquisadora acredita na capacidade das novelas de reforçarem a noção do que é ser brasileiro. “Quando Paraíso tropical estava prestes a ser lançada, Gilberto Braga (autor da novela) falava exatamente isso: que o Rio e, mais especificamente, o bairro de Copacabana, era um caldeirão onde poderia ser encontrada a síntese ou ‘a mais perfeita tradução de nosso povo’”.

Análise social

A partir de 1969
Os dramas urbanos e a mulher

As novelas, a partir de 1969, passam a registrar os dramas da urbanização, das diferenças sociais, da fragmentação da família, da liberalização das relações conjugais e dos padrões de consumo. Atingem seu ápice quando abordam as consequências não planejadas da modernização. As novelas se tornam assunto por sua capacidade inusitada de incorporar, a uma forma industrial, elementos da cultura popular — como a literatura de cordel — e comentários críticos sobre os rumos da política brasileira. Novelas são organizadas em torno do movimento de relações amorosas frágeis e cada vez mais volúveis. Em obras como Irmãos Coragem (1970) ou Selva de pedra (1972), sexo antes do casamento resultava em gravidez e matrimônio obrigatório. Ao longo dos anos, o divórcio foi legitimado, antes mesmo de ser legalizado; o prazer e a independência femininos, também. Em geral, houve uma expansão despolitizada do universo feminino e a valorização de uma ideia de “mulher forte”, que, além de responsável pela família, deve trabalhar e pode almejar a satisfação amorosa.

Anos 1990
O país que o próprio brasileiro desconhece

Na década de 1990, a Rede Manchete se afirma com séries e novelas que aludiam ao universo rural, em chave ecológica ilustrada pela exibição de corpos nus e com o bordão “O Brasil que o próprio Brasil desconhece”. A emissora se torna competitiva, apresentando títulos como Dona Beja (1986), de Wilson Aguiar Filho, novela de época, bucólica e regada a nudez, e A história de Ana Raio e Zé Trovão (1990), de Marcos Caruso e Rita Buzzar, que explorava o universo country. Pantanal (1990), de Benedito Ruy Barbosa, se destaca ao propor explicitamente uma nova versão de identidade nacional: a fauna, a flora e a família no lugar do consumismo moderno e liberado das novelas da época. Pantanal foi gravada longe do eixo Rio-São Paulo, com planos longos e gerais de paisagens bucólicas cortadas por rios de águas límpidas e enfeitadas pela nudez feminina. Ela oferece uma alternativa ao ceticismo com que as outras novelas abordavam as consequências da modernização.

De 2006 em diante
A favela e a ameaça do tráfico

Com Vidas opostas, o autor Marcílio Moraes leva para a novela, na Rede Record, o universo da pobreza e da violência carioca, que o chamado “cinema da retomada” tematizou em filmes como Cidade de Deus (2002), Ônibus 174 (2002) e Tropa de elite I (2007) e II (2010), entre outros. A Globo retruca, em 2007 com Duas caras, de Aguinaldo Silva, sobre a vida em uma favela, nesse caso, cenográfica. A novela busca uma maneira alternativa à violência para abordar a favela. Nessas novelas, a paisagem urbana saturada pela desigualdade e pelo poder paralelo do tráfico já não traz a marca das cores nacionais. Embora a iniciativa tenha sido importante, nenhuma das duas obras consegue a mesma repercussão que alguns filmes sobre o assunto. O cinema contemporâneo ganha proeminência na desconstrução de um país que se dizia do futuro, justamente quando o Brasil é reconhecido nacional e internacionalmente como potência emergente.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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