O jornalismo pós-moderno e a indústria cultural

Apesar da inovação, não se trata do fim do jornalismo, mas um embaralhar das relações sociais, no estágio da sociedade atual, o qual faz emergir mais participantes na geração de conhecimento, com uso de equipamentos que estavam ao alcance apenas de algumas grandes empresas

             O jornalismo chegou a um tempo que exige análise de seu espaço para sua existência, enquanto mediador dos acontecimentos públicos, que dizem respeito aos interesses sociais, cuja missão é evitar o caos e permitir o estabelecimento da ordem. A rigor, na atual época vivida a comunicação passa por profundas transformações com reflexos nítidos no campo da informação. A princípio, a própria indústria que produz e comercializa o produto notícia, assim como outras atividades econômicas, busca se adequar ao seu cliente/espectador, que passa a não ser visto, simplesmente como um ser passivo, que absorve discursos imediatos. Mas o leitor se faz também  produtor gerando conhecimento, que chega às mídias.

A luz da contemporaneidade torna-se importante questionar as teorias frankfurtianas, da existência de um sujeito submetido inteiramente aos desígnios do agente planejador de cultura, subordinado aos resultados financeiros permitidos pela profissão, base de um sistema de domínio ideológico. Se observado mais detidamente verá que as empresas estão imersas em dificuldades financeiras, exatamente pela rapidez da informação e a proximidade que o público tem das novas tecnologias da comunicação. A condição de acesso às notícias, sem a necessidade de pagar, ofusca o comercial, o que resulta em prejuízos, apesar da busca de alternativas com modelos de mídias que resultam em algum tipo de receita, num processo de convergência entre o tradicional e o on-line.

O mundo da publicidade, que somente faz aumentar sua estratégia em busca do público alvo, tem mais opções para atingir seus objetivos, fora dos meios tradicionais, importantes para sua eficácia, por séculos. Logo, a queda do faturamento – em função da fragmentação da publicidade e audiência que foge dos gastos com informação -, gera reflexo na empregabilidade, mudanças no perfil dos profissionais do meio – também em razão de mais fontes de informação -, que de fato, não poderiam estar imunes a essa dinâmica social.

Apesar da inovação, não se trata do fim do jornalismo, mas um embaralhar das relações sociais, no estágio da sociedade atual, o qual faz emergir mais participantes na geração de conhecimento, com uso de equipamentos que estavam ao alcance apenas de algumas grandes empresas. O leitor tem agora condições de se tornar também mediador neste imbricado processo das relações sociais, podendo ser capaz de questionar os tradicionais filtros dos conhecidos meios de comunicação. Tornam-se agentes, de maneira ativa, mesmo que isto implique em buscar conhecimento no jornalismo, para depois expressar sua opinião nas redes sociais, organizando a mensagem mais próxima de sua realidade ou mesmo conforme seu cotidiano.

Certamente, se trata de uma crise a qual deve ser avaliada pelos profissionais da imprensa e campo acadêmico. Mas diferentemente de se pensar de maneira simplista no fim do jornal impresso ou da TV que perdem audiência a cada ano, seria necessário analisar a profissão diante das transformações do meio e das lógicas sociais, de modo a permitir o indivíduo ser participante numa sociedade que se quer ordenada, o qual, na construção da realidade não seja apenas ator secundário. Mais comunicação exige mais mediadores, com profissionais que tenham esclarecimento e competência para olhar aquilo que não está diante dos olhos, mas se esconde estrategicamente, atendendo interesses políticos, econômicos e culturais. Talvez seja mesmo o tempo de mais jornalismo, de mais notícias e menos indústria cultural.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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