Morte de jornalistas inibe trabalho da imprensa em Minas

Folha de S. Paulo

Dois repórteres da editoria de polícia do jornal ‘Vale do Aço’, de Ipatinga, foram assassinados em pouco mais de um mês.  Profissionais são orientados a não saírem sozinhos da Redação; suspeita é de atuação de grupo de extermínio 

 PAULO PEIXOTO DE BELO HORIZONTE

As mortes de dois jornalistas de Ipatinga, na região do Vale do Aço, em Minas, vêm alterando a rotina e inibindo o trabalho da imprensa local.

Primeiro foi a morte do repórter Rodrigo Neto de Faria, 38, em março. No último domingo foi assassinado o repórter fotográfico Walgney Carvalho, 43. Os dois trabalhavam na editoria de polícia do jornal “Vale do Aço”.

Existe a suspeita de envolvimento de policiais que fariam parte de um grupo de extermínio que atuaria na região. Por isso o temor dos jornalistas, especialmente entre os da cobertura policial.

Desde a morte de Faria, o “Vale do Aço” não consegue preencher duas vagas abertas no jornal por falta de candidatos, disse o editor da publicação, Breno Brandão.

No “Diário Popular”, também de Ipatinga, uma repórter policial pediu demissão na última segunda-feira e saiu do Estado, afirmou o editor-chefe Fernando Benedito Jr.

O temor se reflete na rotina das duas pequenas redações, que têm de cinco a oito jornalistas cada uma. E ainda na apuração das reportagens.

“O pessoal que está em campo, até de outras editorias, está receoso e preocupado”, disse Brandão, que tem incentivado a saída de repórteres para coberturas externas sempre com um colega, ainda que de outra empresa.

Segundo Benedito Jr., as reportagens que exigem apuração mais aprofundada foram deixadas de lado. A cobertura está limitada a ocorrências da Polícia Militar e demais informações oficiais.

Para acompanhar as investigações e cobrar apuração e segurança, jornalistas da cidade formaram um comitê batizado Rodrigo Neto.

O jornalista produzia reportagens investigativas e tentava elucidar uma série de 14 homicídios ocorridos nos últimos anos na região, que não foram solucionados.

Um dos casos ocorreu em 2008. Um adolescente infrator foi morto, teve a cabeça decepada e embrulhada em folhas com reportagens escritas pelo jornalista. O embrulho foi jogado na casa de um capitão da PM que apurava o crime.

Já Carvalho havia prestado informações à polícia sobre a morte do colega de trabalho, segundo o deputado estadual Durval Ângelo (PT), da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia de Minas.

O governador Antonio Anastasia (PSDB-MG) reconheceu haver uma “organização criminosa” na região, mas evitou citar a possível participação de policiais para não atrapalhar as investigações, a cargo da polícia mineira.

Entidades de classe e grupos ligados aos direitos humanos têm cobrado apuração e segurança. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência acompanha o caso.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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