Jornalismo sem faro

Blog do Josias

Rua cheia faz do jornalismo profeta do ocorrido

 

A sorte da indústria da informação é que seus produtos ficam obsoletos em menos de 24 horas. Se tivesse que dar garantias do que vende, o jornalismo estaria em apuros. O despertar da geração coca-cola exilou os meios de comunicação das suas certezas. A rua de 2013 é o incômodo local desse exílio.

Nós, os mercadores da informação, devemos à clientela no mínimo uma boa explicação. Consumidores mais exigentes já devem estar perguntando para os seus botões: como dar crédito a produtores de notícias incapazes de farejar uma revolta com potencial para levar 1 milhão de cenhos crispados ao meio-fio?

A política não foi a única vítima da ira da gente moça. A embaraçosa verdade é que a situação do jornalismo é pior. O noticiário trata o novíssimo fenômeno como um tsunami que surgiu do nada em ritmo cinematográfico. Vamos e venhamos: pretendendo esclarecer, complica.

Voz de hoje, guarda das informações de ontem, e prenunciador dos acontecimentos de amanhã, o jornalismo deveria antecipar a História, não ser engolfada por ela. Não se pode nem dizer que não houvesse algo de malcheiroso na atmosfera. O que faltou foi disposição para farejar abaixo da superfície.

Cresceu muito na eleição municipal do ano passado o percentual de votos nulos e brancos. Avultou-se também a abstenção. Para ficar apenas no exemplo de São Paulo: o total de eleitores que não foi votar, anulou o voto ou apertou a tecla “em branco” na urna eletrônica foi de 2,49 milhões (31% do total).

Repetindo: 31% do eleitorado não encontrou um mísero candidato ou partido que considerasse digno de representá-lo. Era uma tribo maior do que a que votara no segundo colocado, o tucano José Serra (1,88 milhões de votos.). Quer dizer: o elefante passou sob a janela e o jornalismo não viu que ele estava de tromba virada.

Estuário natural da história em construção, os meios de comunicação reduziram sua capacidade de observação. Os fatos são acompanhados de forma burocrática e convencional. Movimentos decisivos só são captados pelo jornalismo contemporâneo em sua fase terminal.

Num cenário de interesses voláteis e difusos, o jornalismo já não consegue fixar âncoras de referência para leitores, telespectadores e internautas. Apinhada de estudantes que todos supunham alienados, a rua terminou de converteu o jornalismo em mero profeta do acontecido.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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