Mídia tradicional e direta

No debate

Folha de S. Paulo/opinião

O recado das ru@s

Junia Nogueira de Sá

As manifestações dos últimos dias escancaram uma crise de representatividade e tocam no nervo exposto da mídia tradicional: seu papel (sem trocadilhos) no mundo invadido por redes sociais e blogs.

Emprestando o conceito de democracia direta, o que vemos é a ampliação –até limites ainda indefinidos– de um fenômeno que poderia se chamar mídia direta.

Num esforço de reportagem proporcional aos fatos, esta Folha (Jornal Folha de S. Paulo) tem mantido dezenas de jornalistas em campo. Já os “conectados” da mídia direta são milhares, estão em todos os cantos, têm acesso a tudo e se sentem não apenas na obrigação, mas no direito de serem atores e testemunhas da história –além de guardiões da verdade. Eis o problema.

Que o universo digital produza essa sensação libertadora é positivo. Que a tecnologia lhe permita multiplicar ao infinito opiniões, contribuições e denúncias é positivo. Que a mídia direta crie uma maneira colaborativa de a sociedade se informar é positivo. Mas a ideia de que é apenas na internet “off mídia” que os fatos são relatados sem manipulação e sem compromissos com aqueles que –para usar um bordão das ruas– “não me representam” é desastrosa.

Na crise de representatividade, tudo é posto em xeque. Como instituição, a mídia é questionada como os partidos, o governo, o pastor Feliciano, a Copa e por aí vai. Nas ruas ou no universo digital, não poucas vezes ela tem sido até hostilizada.

Ocorre que boa parte do combustível que incendiou os indignados surgiu exatamente da mídia e de sua vigilância sobre desmandos, desvios e desvãos transformada em reportagens e manchetes. Que, aliás, são frequentemente postadas, curtidas e compartilhadas nas redes sociais.

Um assombroso paradoxo: a mídia direta se nutre da mídia tradicional, aquela com mandato legítimo para apurar e editar, mas cospe no prato em que come.

Isso acontece porque o sujeito das ruas compara o poder da mídia –o tal quarto poder– com o seu e sai para a revanche quando edita a si mesmo na mídia direta.

O recado é claro: a vigilância da mídia é menos rigorosa do que ele quer. Os assuntos da sua vida não estão na pauta –que, de resto, estava desfocada. Basta dizer que, tanto quanto os palácios, os governantes e os marqueteiros, a mídia não foi capaz de pressentir aquilo que agora noticia.

Para o sujeito das ruas, essa mídia “não me representa”.

Para reverter esse cenário, a mídia tradicional precisa enfrentar seus temores diante do fenômeno da mídia direta –na qual o cidadão fala, grita, critica e elogia sem intermediários. Mais: precisa se alimentar dela.

Um bom exemplo: na mais tensa edição de sua história, na noite de 20 de junho, quando o país parecia pegar fogo, o “Jornal Nacional” foi ao ar não ao vivo, mas on-line, com um olho na câmera e outro nas redes sociais, monitorando o pulso do país por meio delas. Sintomaticamente, mudou o tom da cobertura.

É simples assim. O cidadão exige participar de todos os processos que afetam sua vida. E não precisa nem plebiscito para entender o que ele demanda: basta olhar uma “timeline”. Está tudo ali.

No país que não quer mais ser passado para trás, mas quer se passar a limpo, a mídia tem a chance de se aproximar do Brasil.

JUNIA NOGUEIRA DE SÁ é jornalista e consultora de comunicação. Foi ombudsman da Folha (1993-1994)

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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