A construção da realidade no jornalismo

Portal Ciência & Vida

Clóvis de Barros Filho

Toda codificação jornalística é um processo no qual se traduz uma mensagem em um sistema de signos. Esses signos, para serem percebidos, devem pertencer a um repertório convencional e devem manter uma organização dentro da comunicação. Codificar é reduzir o fluido, o impreciso, o disperso, a flexibilidade das fronteiras, e produzir visões claras do mundo. O sociólogo Pierre Bourdieu aponta que a codificação torna as coisas simples, comunicáveis, e torna possível um consensus controlado sobre o sentido. Ele conclui que a codificação dá o mesmo sentido às palavras compartilhadas. Assim, o uso da linguagem no jornalismo implica um consenso entre os jornais e os leitores quanto aos significados dos signos e símbolos linguísticos.

Nesse sentido, a linguagem e a comunicação se apresentam como instrumentos privilegiados de construção da realidade social. Esta só é possível graças à interação entre os indivíduos possibilitada pela comunicação. A linguagem usada na vida cotidiana proporciona continuamente as objetivações indispensáveis e dispõe a ordem dentro da qual a vida cotidiana tem significado. Dessa maneira, a linguagem marca as coordenadas da vida na sociedade e preenche essa vida de objetos, conferindo um sentido.

Nos estudos sobre os efeitos da mensagem jornalística podemos constatar que a construção da realidade social é a própria produção de sentido levada a cabo por todo o processo produtivo midiático, desde a entrada da informação potencial e a canalização temática até a codificação e a formalização do produto informativo.

A informação jornalística quase sempre é transmitida em código linguístico. Não está excluída a comunicação não verbal. Quando o apresentador de um jornal televisivo sorri após transmitir uma informação, também está codificando uma mensagem. As mensagens não verbais interagem com a palavra – os códigos linguísticos – para reforçá- -la, alterá-la ou negá-la.

Empregos sutis que os gestos do corpo ou o percurso da câmera possuem para compor ou deslegitimar o sentido de uma mensagem. No jornalismo impresso, esse efeito ocorre na escolha da imagem que ilustra a matéria, o tipo de diagramação e a posição da matéria no jornal ou revista. Detalhes que parecem tolos, mas que transmitem significados.

Não é incomum que os manualistas de jornalismo ignorem, em suas lições, a especificidade do texto escrito em relação ao falado e vice-versa, talvez porque o lugar ocupado pela escrita no processo de comunicação seja controverso, sobretudo quando se tenta precisar seu grau de subordinação em relação à fala.

A especificidade da codificação “texto informativo” transparece graças a um conjunto de características distintivas das demais manifestações ou “gêneros jornalísticos”. O gênero informativo é um gênero jornalístico comumente ombreado pelos gêneros interpretativo e opinativo. Essa divisão foi adotada na distribuição das disciplinas pela maioria das escolas de jornalismo. Trata-se de uma tipologia clássica que trabalhei ou pesquisei, repetida com sutis variantes, pela quase totalidade dos manualistas que se dedicam ao tema.

Reza a boa e sã doutrina para cursos de graduação que a principal característica do “jornalismo informativo” é a busca do fato, despido de valorações, adjetivações ou da opinião pessoal do jornalista. Como vimos em colunas anteriores, essa busca, ainda que apoiada em um conjunto de técnicas de codificação, é inócua. No entanto, o resultado obtido – a informação com aparência de objetividade – tem grande importância na persuasão dos leitores e telespectadores. As aparentes objetividade e imparcialidade, tão meticulosamente construída pelos meios de comunicação, servem para mascarar as intenções daqueles que enunciam. Suas aspirações e suas posições no jogo pelo poder social. De forma cínica, alegando tratar somente de “fatos reais”, tentam evitar juízos éticos sobre suas condutas.

A objetividade aparente é característica do texto informativo por sua estrutura, seu léxico, seus limites e também sua posição entre os demais produtos da mídia. O texto informativo, como qualquer enunciado, é um processo específico de individualização da linguagem enquanto código de significação. Quando um jornalista redige uma matéria, materializa um processo ininterrupto de escolhas e de eliminações que acabam constituindo uma mensagem entre uma infinidade de possibilidades preteridas. Além das escolhas estritamente formais de sintaxe e léxico, opera-se uma seleção temática.

Essa seleção é um imperativo. O limite do número de caracteres ou de segundos é necessariamente redutor do real, de seus eventos e nexos de causalidade. Redutor de sua complexidade. Ao oferecer de forma mais ou menos consonante um conjunto limitado de temas, um “menu” temático comum, permite-se ao sujeito dominar uma realidade social simplificada. Dessa maneira, o jornalismo codifica o mundo do leitor, do ouvinte ou do telespectador de maneira simplista e ideologicamente ordenada. O mundo pautado pelo jornal e compartilhado pelo senso comum tem a aparência de lógico, ordenado e pautado em verdades que são facilmente questionáveis.

A forma como os meios de comunicação constroem diariamente a realidade, nos pequenos detalhes de produção, se enquadram em problemas éticos que dificilmente são aceitos ou debatidos por jornalistas e empresas de comunicação.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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