Público brasileiro não prestigiam as novas superproduções brasileiras

Folha de S. Paulo

Filmes como ‘O Tempo e O Vento’ e ‘Flores Raras’, que custaram acima de R$ 10 milhões, falham em atrair público. Longas de orçamento grande e atores famosos na TV não conseguem alcançar a marca de 1 milhão de espectadores

RODRIGO SALEM

MARCO RODRIGO ALMEIDA

Nos anos 1970, o termo blockbuster (“arrasa quarteirão”) passou a definir filmes de grandes bilheterias. Ao longo dos anos, virou sinônimo de produções milionárias, de apelo popular, repletas de ação e fadadas ao sucesso.

A fórmula não consegue emplacar no Brasil. Em 2013, mesmo com o cinema nacional em alta, rendendo quase 300% a mais do que no ano passado, nenhum filme com orçamento acima dos R$ 10 milhões conseguiu a marca de 1 milhão de espectadores.

O primeiro a falhar foi “Flores Raras”, de Bruno Barreto, que dirigiu “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), segunda maior bilheteria do cinema nacional, com 10,7 milhões de pagantes. Apesar de ter recebido o prêmio de público no último Festival de Berlim, o drama de R$ 13 milhões só foi visto por 272 mil pessoas e arrecadou R$ 3,3 milhões.

“O esperado é que fizesse em torno de 500 mil espectadores”, conta o diretor, que culpa a falta de confiança dos exibidores e do distribuidor. “A intenção foi contar a história da maneira mais acessível, sem comprometer a complexidade dos personagens e da trama. A crítica internacional e os prêmios de público me deram a certeza que consegui.”

“O Tempo e O Vento”, com atores globais (Thiago Lacerda, Cléo Pires), um diretor de sucesso comercial (Jayme Monjardim) e orçamento de R$ 14 milhões, não passou dos 622 mil ingressos vendidos, arrecadando só R$ 6,8 milhões.

“No sul, o filme foi bem, mas não houve uma empatia com o público paulista, que é um dos determinantes para as bilheterias acima de R$ 1 milhão”, afirma Rita Buzzar, produtora do filme.

A última superprodução nacional a tropeçar foi “Serra Pelada”. Mesmo com um bom boca a boca, vários atrativos (astros, ação, lançamento em 300 salas), o longa de Heitor Dhalia chegou à segunda semana de exibição com 253 mil ingressos vendidos.

“O filme poderia ter ido muito melhor se houvesse um público mais aberto a novas experiências. Eu esperava que tivesse avançado mais”, diz Dhalia. “Ele foi bem de crítica. Tenho planos de fazer um filme de cangaço, mais barato, mas estou refletindo agora como fazer, que estrutura utilizar nesse cenário.”

Apesar de números baixos, o apoio do governo facilita a vida dos produtores. Cada um dos três filmes citados teve mais de R$ 5 milhões captados via mecanismos de renúncia fiscal e leis de incentivo.

Em 2014, filmes dispendiosos como “Amazônia” (R$ 26 milhões), “Rio, Eu Te Amo” (R$ 25 milhões) e “Pelé” (R$ 14 milhões) tentarão a sorte nos cinemas brasileiros.

“Nos EUA, os grandes filmes de estúdio recebem mais incentivos fiscais. RoboCop’ teve mais de US$ 20 milhões”, conta José Padilha, que dirigiu “Tropa de Elite 2” (2010), o último blockbuster de grande sucesso no Brasil, com mais de R$ 100 milhões de renda, e também “RoboCop”.

“Os incentivos ao cinema brasileiro não foram pensados para dar origem a uma indústria local, mas para angariar apoio de cineastas a este ou aquele partido político ou candidato a cargo público.”

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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