Revolução da Mídia brasileira

 

nodebate – Depois do impeachment de Dilma Rousseff(PT), quando, para a esquerda brasileira, se arquitetou o golpe e colapso da democracia, não haveria dúvida a necessidade de discussão sobre o papel da mídia nacional. Nesta análise está a ruptura institucional, com enquadramentos sucessivos no jornalismo de grande audiência, comercial, defendendo intransigentemente a troca do governo, pretensamente com política voltado para o social. O sentimento, em muitos momentos para os espectadores, seria de pura desilusão com os meios de comunicação, defendendo partidos políticos e formas de governo conservador e ultradireita. Chega de jornalismo, então, pressupõe.

Foto – Café na políticahttp://www.cafenapolitica.com.br/wp-content/uploads/2016/02/midia-prof-jm.jpg

 

A medida radical dos leitores faz sentido, diante de um esquema de visibilidade de informação ordenado previamente, antes dos acontecimentos, nas redações ou mesmo nas salas de reuniões empresariais. Portanto, para muitos, o projeto de mídia comercial que está posto no Brasil, não serve e deve ser substituído por outro, portanto, mais democrático. O ícone desta mudança passaria pelo Jornal Nacional da Rede Globo, da família Marinho.

No entanto, o jornalismo segue sua ordem. Se antes apresentou uma crise sem fim, agora, depois do impedimento de Dilma Rousseff e do PT, agora marginalizados do poder político, tudo cai nos eixos, a inflação se torna a menor dos tempos. Os sinais são de redução de preços nos supermercados e muito otimismo na população. Sem contar, as vozes de jornalistas bem pagos que defendem o projeto conservador aberta e explicitamente. O difícil é dizer se este processo é mesmo tranquilo nas redações, nas antessalas da imprensa. A negociação deve ser calorosa. Entende-se que não seja algo como fala e obedece.

Talvez mereça discussão, o fato de entender que estes meios de comunicação têm audiência, com público que apoia tais medidas jornalísticas de enquadramentos com postura de prioridade econômica e conservadora. A sociedade deve entender, está nesta relação de diálogo ou passaríamos a chamar as pessoas de qualquer coisa, menos capazes de pensar racionalmente. Não parece o caso.

A dúvida que paira é até quando este romance político perdurará entre o novo governo, de Michel Temer, jornalistas, porta-vozes políticos conservadores e empresários. Será mesmo que a figura do presidente é que importa? A comunicação se ordena somente na tela da Rede Globo e em alguma única residência brasileira privilegiada? Mas há um fato fundamental, sem os meios de comunicação não será possível pensar a sociedade. Criou-se, nos tempos atuais, uma grande dependência das mídias, sobretudo, para se informar. Por aqui passa a política brasileira. Uma boa aposta!

O que se espera é que algo novo surja com certa brevidade. Pelo caminhar da humanidade haverá sempre curvas à vista.

 

 

Duas realidades brasileiras?

nodebate – A cineasta Anna Muylaert conseguiu chamar atenção, no filme “Que horas ela volta” (2015), de um tema muito sensível no Brasil: o preconceito da classe média sobre os andares debaixo do país. Na película a empregada doméstica, protagonizada por Regina Casé, com um show de interpretação, se sente uma cidadã de segunda classe, respondendo a todos os caprichos dos patrões, com evidência na sociedade do glamour.

Diferentemente dos contos de fadas de Hollywood, a babá do cinema não se transforma em princesa, mas descobre seu lugar de direito na sociedade, mesmo vivendo à margem do  sistema conservador brasileiro.

O ponto crucial da narrativa está na comparação do nível intelectual dos excluídos e o de elite vislumbrada com o tradicional status quo social assegurado. A filha da emprega consegue aprovação em vestibular do concorrido curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP). A mesma capacidade não teve o filho dos patrões.

Nesta relação, quebra-se a magia do preconceito da burrice congênita, como a própria literatura brasileira apregoou e muitos pensadores reproduziu implicitamente, ao longo dos séculos.

No final, o pedido de demissão da empregada, visto pela patroa como uma questão de aumento salarial ou apenas capricho de brigas internas na casa grande. Uma forma de desconsiderar  a realidade das diferenças sociais e um país divido pela riqueza. Pensando assim, a escravatura, possivelmente, ainda subsista no reforço do símbolo do poder, cuja regalias é um direito conveniente somente para aqueles que nasceram afortunados.

O Rei de Sangue Azul, então, subsiste como realidade. As instituições lideradas pela ordem e progresso, certamente, têm papel importante para esta realidade.

Contudo, a história nem sempre mantém o seu enredo. Apesar da propaganda enganosa, reproduzida na escola, na mídia e no imaginário social.

POLÍTICA DO GOLPE NA MÍDIA

nodebate – Sempre devemos considerar diferentes, empresa de mídia, Jornalismo e jornalista. Embora estes limites sejam muito visíveis na sociedade, mas em alguns momentos de exaltação misturam-se os conceitos e tudo vira sinônimo. Mas, de fato, as empresas de comunicação, nos destaques de páginas, na seleção dos fatos e enquadramentos notoriamente, há alguns meses, são favoráveis à saída da presidente Dilma Rousseff do governo, e trabalha intensamente para esta finalidade com seus personagens públicos.

As coberturas e destaques são muitos distintos para os dois lados e suas ramificações, com construção de heróis em favor do impeachment. Neste sentido, o Brasil na mídia é pura crise de representação para a política e economia, sobretudo, com destaque também para o Congresso Nacional. Em outras palavras o povo está sem nenhuma representação e ainda por cima, percebendo a corrupção aparecer por todos os lados, envolvendo desmesuradamente o governo Federal.

A questão que leva a este sentimento por também estar relacionado com a apuração, pois há informações veiculadas antes da apuração mesmo que dita pela justiça, a qual incendeia os veículos de comunicação, com dados que ainda estão sob apuração. Como há predisposição à condenação, a visão que se tem do fato nos jornais é que está consumado, quando na verdade muitos desses dados continua ainda em procedimentos de investigação. Como sabemos, na justiça tudo é muito moroso e leva tempo. Mas não é o caso das informações sobre a corrupção nas instituições públicas.

A preocupação é a mudança dos procedimentos: primeira se condena depois analisa ser tem fundamentos os delitos. Assim, primeiro se resolve questões de interesse político e depois fala-se da justiça

No final desta história muitas informações virão à tona, com os meios de comunicação se dizendo ser levado pela onda para os erros neste e naquele lugar, que a sociedade deve desculpar o tempo do jornalismo, etc. Como exemplo o apoio da Rede Globo aos governos militares, depois as desculpas. O mea culpa sobre debate histórico entre Collor e Lula e tal.

A corrupção deve ser combatida, de modo a permitir a moralidade das instituições brasileiras para que sejam definitivamente democráticas. Assim, permitir que os mais pobres, de fato, tenham representação na repartição da riqueza (distribuição de renda) e poder (direito) de participação. Talvez seja mesmo uma tomada de decisão tardia no Brasil, que se arrasta por tempo imemoriais, infelizmente. Mas a dúvida é se realmente em questão está a corrupção, neste instante político e na onda do conservadorismo.

Devemos atentar pelo fato de que, os meios de comunicação sendo quem apura e leva os fatos à sociedade, constroem a própria realidade, por onde as pessoas se informam, sobretudo no tempo presente. Sua responsabilidade pública é sumariamente necessária, sob o peso de causar desigualdades de injustiça social a ser lamentada eternamente. A população deveria conhecer melhor a comunicação e que, por vezes, se torna a sua, a que vem das mídias.

 

O socialismo da mídia

nodebate – O Brasil se tornou um país de destaque no mundo político, com a eleição de um operário, vindo de regiões periféricas do país, onde, infelizmente, assim como grande parte deste território, a fome é comum e faz parte da paisagem. Nas universidades este fato ganhou ares de revolução social, com possibilidade de mudanças no cenário brasileiro, retirando-se governos voltados para a referência dos grandes centros econômicos e, por isso, dependentes.

Entre as elites nacionais exportadora foi o fim dos mundos, pois como haveria representação internacional com um presidente semianalfabeto, de origem pobre, com discurso socialista? Momento de tensão também no universo da imprensa, o que pensar?

Imagem R7, Site Balaio do Kotscho

Se a globalização é uma realidade, se deve observá-la também nas disputas que ocorrem, considerando que há uma expansão de comunicação, conhecimento e riquezas. Portanto, precisa-se dar ordem a um processo que está posto. Se aqueles que surfam numa visão economicista, logo o setor financeiro e especulativo deve ser observado com muita atenção, afinal é gerador genuíno de possibilidade de riquezas. Para os socialistas intelectuais, momento para políticas de distribuição de renda, num mundo em que há mais esclarecimentos.

Simplificando esta discussão, ficamos aqui com estes dois enfrentamentos, em meio a tantos matizes. Evidentemente que a mídia ganha destaque neste espectro de discussões e formação de pensamento.

Não tardou a se observar o reforço do jornalismo conservador e reacionário aparecer, no sentido de colocar as coisas no lugar, na possibilidade dos modelos de sociedade do século XX. Fato, é que outras mídias surgem rapidamente, quando jornalistas e populares constroem seus próprios meios, explorando as redes sociais. Importante, notar que há aqui também uma disputa, para além-fronteiras.

O mais contraditório, no entanto, é compreender que os partidos que fizeram moda na América Latina, inclusive o PT no Brasil, estariam distantes de uma realidade socialista, com ampla distribuição de renda e riquezas. Mas, para sobreviver em meio ao poder milenar, precisariam aproximar do povão, de modo a ter forças para reestruturar o poder político e econômico, nestes enfrentamentos com a chamada elite nacional e internacional, com seus tentáculos mundo afora.

A questão que se apresenta é: jornais como Clárin e La Nación, na Argentina, New York Times, nos Estados Unidos (e similares na Europa), Folha, Estadão, Globo, Veja no Brasil, definitivamente, assume, dispondo de milhares vozes (fontes) padronizadas, como missão simplesmente a defesa de um modelo de desenvolvimento.

Em outras palavras, acredita-se que o crescimento econômico somente pode ocorrer se houver a capacidade de multiplicar riquezas, porém concentradas. A proposta ruiria se governos gastarem demais com aumento do estado do bem-estar social. Para muitos brasileiros na rede social bem-intencionados, isso é cristalino e reproduz o discurso. Mas no fundo, a busca é mesmo para manutenção de ordem social, cujas afirmações atestam que infelizmente a pobreza é o resultado da falta de competência dos indivíduos (pobres), por isso o sucesso do capitalista.

Em essência, na ordem do dia apenas a defesa de um modelo, sem rupturas, que paradoxalmente apenas casualmente se modifica para se manter, que modernamente tem o nome de neoliberalismo.

Quiçá que outros modelos sejam possíveis. Uma transformação que deverá passar pelas redações dos grandes jornais e vozes globais.

Público brasileiro não prestigiam as novas superproduções brasileiras

Folha de S. Paulo

Filmes como ‘O Tempo e O Vento’ e ‘Flores Raras’, que custaram acima de R$ 10 milhões, falham em atrair público. Longas de orçamento grande e atores famosos na TV não conseguem alcançar a marca de 1 milhão de espectadores

RODRIGO SALEM

MARCO RODRIGO ALMEIDA

Nos anos 1970, o termo blockbuster (“arrasa quarteirão”) passou a definir filmes de grandes bilheterias. Ao longo dos anos, virou sinônimo de produções milionárias, de apelo popular, repletas de ação e fadadas ao sucesso.

A fórmula não consegue emplacar no Brasil. Em 2013, mesmo com o cinema nacional em alta, rendendo quase 300% a mais do que no ano passado, nenhum filme com orçamento acima dos R$ 10 milhões conseguiu a marca de 1 milhão de espectadores.

O primeiro a falhar foi “Flores Raras”, de Bruno Barreto, que dirigiu “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), segunda maior bilheteria do cinema nacional, com 10,7 milhões de pagantes. Apesar de ter recebido o prêmio de público no último Festival de Berlim, o drama de R$ 13 milhões só foi visto por 272 mil pessoas e arrecadou R$ 3,3 milhões.

“O esperado é que fizesse em torno de 500 mil espectadores”, conta o diretor, que culpa a falta de confiança dos exibidores e do distribuidor. “A intenção foi contar a história da maneira mais acessível, sem comprometer a complexidade dos personagens e da trama. A crítica internacional e os prêmios de público me deram a certeza que consegui.”

“O Tempo e O Vento”, com atores globais (Thiago Lacerda, Cléo Pires), um diretor de sucesso comercial (Jayme Monjardim) e orçamento de R$ 14 milhões, não passou dos 622 mil ingressos vendidos, arrecadando só R$ 6,8 milhões.

“No sul, o filme foi bem, mas não houve uma empatia com o público paulista, que é um dos determinantes para as bilheterias acima de R$ 1 milhão”, afirma Rita Buzzar, produtora do filme.

A última superprodução nacional a tropeçar foi “Serra Pelada”. Mesmo com um bom boca a boca, vários atrativos (astros, ação, lançamento em 300 salas), o longa de Heitor Dhalia chegou à segunda semana de exibição com 253 mil ingressos vendidos.

“O filme poderia ter ido muito melhor se houvesse um público mais aberto a novas experiências. Eu esperava que tivesse avançado mais”, diz Dhalia. “Ele foi bem de crítica. Tenho planos de fazer um filme de cangaço, mais barato, mas estou refletindo agora como fazer, que estrutura utilizar nesse cenário.”

Apesar de números baixos, o apoio do governo facilita a vida dos produtores. Cada um dos três filmes citados teve mais de R$ 5 milhões captados via mecanismos de renúncia fiscal e leis de incentivo.

Em 2014, filmes dispendiosos como “Amazônia” (R$ 26 milhões), “Rio, Eu Te Amo” (R$ 25 milhões) e “Pelé” (R$ 14 milhões) tentarão a sorte nos cinemas brasileiros.

“Nos EUA, os grandes filmes de estúdio recebem mais incentivos fiscais. RoboCop’ teve mais de US$ 20 milhões”, conta José Padilha, que dirigiu “Tropa de Elite 2” (2010), o último blockbuster de grande sucesso no Brasil, com mais de R$ 100 milhões de renda, e também “RoboCop”.

“Os incentivos ao cinema brasileiro não foram pensados para dar origem a uma indústria local, mas para angariar apoio de cineastas a este ou aquele partido político ou candidato a cargo público.”

Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro

O Globo

Naquele contexto, o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica.

images968Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura.

Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.

Há alguns meses, quando o Memória estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar pública essa avaliação interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto.

Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário.

Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas.

De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos, ao reproduzir nesta página a íntegra do texto sobre o tema que está no Memória, a partir de hoje no ar:

1964

“Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.

A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.

Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.

Na noite de 31 de março de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal não pôde circular em 1º de abril. Sairia no dia seguinte, 2, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, “A decisão da Pátria”. Na primeira página, um novo editorial: “Ressurge a Democracia”.

A divisão ideológica do mundo na Guerra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e capitalistas, se reproduzia, em maior ou menor medida, em cada país. No Brasil, ela era aguçada e aprofundada pela radicalização de João Goulart, iniciada tão logo conseguiu, em janeiro de 1963, por meio de plebiscito, revogar o parlamentarismo, a saída negociada para que ele, vice, pudesse assumir na renúncia do presidente Jânio Quadros. Obteve, então, os poderes plenos do presidencialismo. Transferir parcela substancial do poder do Executivo ao Congresso havia sido condição exigida pelos militares para a posse de Jango, um dos herdeiros do trabalhismo varguista. Naquele tempo, votava-se no vice-presidente separadamente. Daí o resultado de uma combinação ideológica contraditória e fonte permanente de tensões: o presidente da UDN e o vice do PTB. A renúncia de Jânio acendeu o rastilho da crise institucional.

A situação política da época se radicalizou, principalmente quando Jango e os militares mais próximos a ele ameaçavam atropelar Congresso e Justiça para fazer reformas de “base” “na lei ou na marra”. Os quartéis ficaram intoxicados com a luta política, à esquerda e à direita. Veio, então, o movimento dos sargentos, liderado por marinheiros — Cabo Ancelmo à frente —, a hierarquia militar começou a ser quebrada e o oficialato reagiu.

Naquele contexto, o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966.

O desenrolar da “revolução” é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa.

No ano em que o movimento dos militares completou duas décadas, em 1984, Roberto Marinho publicou editorial assinado na primeira página. Trata-se de um documento revelador. Nele, ressaltava a atitude de Geisel, em 13 de outubro de 1978, que extinguiu todos os atos institucionais, o principal deles o AI5, restabeleceu o habeas corpus e a independência da magistratura e revogou o Decreto-Lei 477, base das intervenções do regime no meio universitário.

Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia e, depois, para conter a irrupção da guerrilha urbana. E, ainda, revelava que a relação de apoio editorial ao regime, embora duradoura, não fora todo o tempo tranquila. Nas palavras dele: “Temos permanecido fiéis aos seus objetivos [da revolução], embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários.”

Não eram palavras vazias. Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.

Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora.

Ficou famosa a sua frase ao general Juracy Magalhães, ministro da Justiça do presidente Castello Branco: “Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus”. Nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, O GLOBO, nos períodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.

Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.

Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.

À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

Governo brasileiro quer e-mail nacional

Folha de S. Paulo

O governo brasileiro encomendou aos Correios o desenvolvimento de um sistema nacional de e-mail. Previsto para ser lançado no segundo semestre de 2014, ele terá como mote comercial a segurança contra “bisbilhotices”.

O plano é criar uma alternativa brasileira aos populares Hotmail, da Microsoft, e Gmail, do Google.

A estatal já vinha trabalhando em um sistema de correspondência eletrônica para fins empresariais, que contaria com certificação de entrega ao ser lido pelo destinatário.

Após o mundo conhecer casos de espionagem do governo dos Estados Unidos, o Ministério das Comunicações pediu que o escopo do negócio fosse ampliado para um serviço nacional.

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