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(Risos)

Folha de S. Paulo

Heitor Cony

Todo mundo sabe que Graciliano Ramos, nos tempos em que fazia revisão dos textos da reportagem do “Correio da Manhã”, sendo na realidade um ancestral dos futuros copidesques, embirrava com certas palavras: “entrementes” e “outrossim” levavam o velho Graça a um delírio de epilético.

No meu caso, bem mais modesto, mas relativamente epilético diante de certos textos, subo pelas paredes quando leio entrevistas em que o repórter coloca entre parêntesis a marcação cênica: (risos). A rubrica pretende acentuar a ironia ou a graça de determinada declaração, fazendo do leitor uma besta que não entende nada.

Em geral, o pessoal que sai dos cursos de jornalismo aprende que eles devem ser claros, objetivos e completos em suas matérias. Volta e meia leio que Gonçalves Dias nasceu no dia tal, na rua das Palmeiras, “número 57, fundos”.

A mania não é exclusiva da imprensa. Nos debates parlamentares, os discursos publicados no “Diário Oficial” estão cheio de risos, palmas e a informação final: “O orador é vivamente cumprimentado”.

O dever de ser claro, objetivo e completo obrigou uma estagiária que trabalhava comigo a ser perfeita nas informações que me trazia. No acidente que matou o filho de um compositor famoso, numa das pistas do aterro do Flamengo, ela narrou o acidente desde os seus primórdios e completou com as providências tomadas pelas autoridades: “Ao local do desastre compareceram o delegado Rubens Fontoura, o médico Ary Pinheiro Neto e o padioleiro Rubinho”.

Pessoalmente, achei simpática a referência ao padioleiro Rubinho, pedi a outro repórter que entrevistasse o Rubinho, que por sinal não se chamava Rubinho, mas Julinho. Estava furioso porque lhe trocaram o nome. (risos).

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