Desafios do Jornalismo na atualidade

TV Brasil

Entrevista com o pesquisador e professor de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), que analisa a realidade da imprensa e os rumos da formação acadêmica da profissão.

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Jornalista tem complexo de elite

Publicado pelo Site Socialista Morena

Por Cynara Menezes

(Te cuida, Peninha, que o sobrinho do patrão é o Donald)

Quando eu trabalhei na Folha de S.Paulo pela primeira vez, em 1989, fui demitida porque confundi fisicamente o irmão de PC Farias, Luiz Romero, com o cientista político Bolívar Lamounier (parece bizarro, mas eles eram de fato parecidos). Na época, fiquei muito triste porque me pareceu uma bobagem diante dos furos que tinha dado em minha passagem-relâmpago por lá, e me senti como a namorada que é chutada no auge da paixão. Depois, refletindo, vi que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido ao meu ego de fedelha de 22 anos que já estava se achando, em pleno início de carreira, uma das maiores jornalistas do país. Também foi importante por me fazer perder rapidamente a ilusão de ser imprescindível e não apenas um parafuso na engrenagem deste grande negócio que se chama imprensa. Descobri cedo qual era o meu lugar.

Quatro anos mais tarde, quando o jornal me convidou para voltar, eu era outra. Meu entusiasmo e a vontade de fazer reportagens interessantes continuavam intactos, mas havia morrido dentro de mim aquela sensação de “pertencer” a alguma empresa que contratasse os meus serviços, de ser “querida” na casa ou de integrar uma “família”. Para mim, meu empregador passara a ser apenas meu empregador. E eu, uma mera operária da palavra, que estava por ali fazendo o meu melhor, mas que tinha claro que podia ser descartada a qualquer momento. Até porque, no Brasil, quanto mais você se torna experiente e se destaca numa empresa jornalística, e consequentemente ganha mais, não passa a ser o menos visado na hora dos “cortes”, e sim o oposto.

Esta visão pragmática não me tornou, entretanto, insensível ao descarte de vários contemporâneos que presenciei ao longo dos anos. Cada vez que um deles é chutado, ao contrário, sinto uma revolta ainda maior do que senti naquela primeira (e felizmente única) demissão. É como se fosse comigo. Sinto raiva quando lembro da vez que um amigo, excelente texto, foi dispensado, após 13 anos como repórter, e o primeiro que comentou foi: “Puxa, e olha que nunca dei um ‘erramos’”. Ou do que aconteceu recentemente com um fotógrafo querido, que comemorou pela manhã no Facebook os 20 anos de jornal e, à noite, voltou para publicar em seu mural que havia sido demitido. A empresa certamente nem se deu conta de que o fazia justo naquele dia. Na planilha de custos, aquele profissional impecável se resumia a alguns dígitos numa folha de pagamentos.

A esmagadora maioria dos jornalistas que conheci na minha já longa carreira são, como eu mesma, pés-rapados que ascenderam socialmente em virtude do seu trabalho, apurando, entrevistando, escrevendo, editando, fotografando. Infelizmente, com a ascensão social (somada ao convívio com o poder), os mal nascidos jornalistas se iludem de que passaram a integrar a elite, senão financeira, intelectual do País. É por isso que, como diz Mino Carta, “o Brasil é o único lugar onde jornalista trata patrão como colega”. Boa parte dos jornalistas acha mesmo que os patrões são colegas: colegas de classe. Patrões e jornalistas estariam lado a lado na elite. Não é à toa que tantos não se constrangem em escrever reportagens que representam uma classe a qual não pertencem de origem: se mimetizaram com ela.

É claro que jornalistas ficam abalados e tristes, sim, quando um companheiro de redação é demitido, mas não a ponto de fazer protestos ou de se organizarem para questionar as “reestruturações”.  E por que é assim? Eu acho que, no fundo, os jornalistas não reagem quando alguém vai parar no olho da rua porque, de certa maneira, se sentem solidários também com o dono, seu “colega”, na fria e corriqueira justificativa de de que “era preciso cortar os custos”. Como se a empresa onde batem ponto diariamente fosse um pouco sua, ao mesmo tempo que sabem que serão os próximos. Aquela bendita demissão 24 anos atrás me livrou de sentir esta síndrome de Estocolmo.

Não sei o que vai acontecer, no futuro, com o jornalismo impresso, em crise no mundo –e mais em um país de pouca leitura como o nosso. Não acredito que as demissões que se tornarão cotidianas sejam capazes de provocar na categoria uma consciência de classe que nunca teve e que, ao meu ver, nunca terá. A minha esperança é que a mesma internet que tem causado a fuga de leitores e os consecutivos cortes nos jornais proporcione um novo modelo de empresa de comunicação, alguma experiência individual, quiçá conjunta ou até cooperativa, em que possamos ser patrões de nós mesmos, para variar. As crises costumam ser boas para reconstruir. Oxalá nasça daí um jornalismo onde saibamos melhor nosso lugar na sociedade e a quem estamos servindo ao ganhar, com a notícia, o pão de cada dia.

Jornalista preguiçoso?

Ola Antonio, bom dia! Como vai?
Eu preciso de um favorzão precioso seu. To com um pauta para fazer cobrindo uma maravilhosa palestra que a Malu Longo, repórter do O Popular deu ontem na faculdade. Ela falou que na questão para contratar novos profissionais de jornalismo aqui em Goiás não tá fácil. Disse que a coisa tá crítica. Tão chegando gente na redação preguiçosa e sem iniciativa, diz ela.

Resposta:

Penso que os alunos de jornalismo estão sempre muito preocupados com o mercado. As faculdades particulares, sobretudo, mas as públicas também procuram atender o seu cliente, como se estivesse cumprindo sua missão. Na verdade a questão é outra, como formar bem os estudantes de jornalismo. Não é uma tarefa fácil, pois há muitas mudanças no sistema de comunicação global, com transformações locais. O jornalista hoje precisa ter mais conhecimento que anteriormente, decadas passadas, em virtude de quantidade de informações que chegam e precisam ser filtradas rapidamente – isto inclui conhecimento de história, sociologia, antropologia, ética, etc. Não basta escrever razoavelmente bem, saber o que é um lide e conhecer diagramação; é necessário que se saiba refletir, tem olhar que vai além da superfície dos fatos. O mercado é muito ingrato, ao mesmo tempo que quer um aluno que chegue para a redação com capacidade para fazer cobertura, de maneira técnica, exige um profissional capaz de aprofundar nas abordagens dos fatos. Ora. Ouvi muitas vezes a fala de alguns alunos de que “precisam trabalhar, inclusive para pagar o salário do professor”, por isso, não tinham condições de leitura mais elaboradas. Um engano, o professor deve ter como objetivo a formação do aluno seguindo alguns parâmetros de exigência, sem a qual não se forma, mas apenas oferece diploma. Um jogo para se manter com bom relacionamento com coordenadores medíocres e diretores voltados para o negócio, aprovando integralmente uma turma, que segue com sala cheio nos semestres seguintes. Na verdade comete equívocos na formação, no produto que oferece, ou melhor, vende. Se um médico precisa ser responsável, pois, pode matar o paciente se não possue conhecimentos indispensáveis, por que não ocorre a mesma coisa com o jornalista, que trata com mentes e corações. Não se vive somente pelo corpo, mas o homem é aquilo que ele pensa, sobremaneira. Neste sentido, o jornalista que leva conhecimento para seus leitores tem ampla responsabilidade, que começa na sala de aula. Claro que devemos analisar o interesse dos veículos de comunicação, que se isentam de suas responsabilidades e esperam um profissional passivo, mas competente. Deveriam valorizar os jornalistas, uma forma de incentivar a profissão. Os jornais exageram na exigência profissional, tentando resolver a falta de competência administrativa, muitas vezes. Há aqui um problema social, afinal, um país não vive sem mídias.

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